Ícone do site Suno Notícias

Ibovespa esqueceu como sobe? Bolsa emenda 10 quedas e agosto vira teste de nervos

O Ibovespa completou dez pregões consecutivos de queda

O Ibovespa completou dez pregões consecutivos de queda

O botão verde parece ter sumido da B3 em agosto. O Ibovespa fechou a segunda-feira (17) em queda de 0,09%, aos 166.783,57 pontos, e completou dez pregões consecutivos no vermelho, a maior sequência negativa desde as 13 baixas seguidas registradas em agosto de 2023. No mês, o índice já recua cerca de 6,3% e, até agora, não conseguiu encerrar uma única sessão em alta.

O que chama atenção é que não existe um único culpado para a sequência. O mercado brasileiro foi atingido ao mesmo tempo pela retirada acelerada de estrangeiros, pelo aumento do prêmio de risco eleitoral e fiscal, pelos juros ainda elevados, pela desaceleração da economia e, mais recentemente, por uma nova rodada de tensão no Oriente Médio.

O resultado dessa mistura apareceu no fluxo. Investidores estrangeiros já retiraram R$ 15,6 bilhões da B3 em agosto, maior saída mensal desde janeiro de 2022. Apesar da debandada recente, o saldo acumulado em 2026 ainda permanece positivo.

Cadê os gringos?

O capital estrangeiro foi uma das forças que sustentaram a valorização da Bolsa brasileira no começo do ano. Agora, passou a trabalhar na direção contrária.

A mudança ganhou velocidade em agosto. Em apenas um dos pregões, em 11 de agosto, os estrangeiros retiraram R$ 4,7 bilhões do mercado acionário, maior saída diária desde abril de 2021.

A Genial Investimentos avalia que o movimento reflete uma reprecificação do risco brasileiro. Segundo a casa, o prêmio eleitoral e fiscal passou a dominar a formação dos preços, levando o mercado local a se descolar do ambiente mais favorável observado em alguns momentos no exterior. A proximidade da eleição e as dúvidas sobre a trajetória das contas públicas aparecem no centro dessa cautela.

O BB Investimentos também observa dificuldade para a formação de posições mais estruturais de estrangeiros neste período. Na leitura da casa, a maior volatilidade doméstica se soma a uma temporada de resultados corporativos mais pressionada, contribuindo para a redução da exposição ao Brasil.

O movimento acontece depois de um início de ano bastante diferente. O Safra lembra que a Bolsa recebeu cerca de R$ 69 bilhões de capital externo até meados de abril, antes de o fluxo perder força com a piora das expectativas para inflação e juros no Brasil e a recuperação do interesse por ações americanas, sobretudo de tecnologia.

Eleição, fiscal e juros entram na mesma conta

A eleição presidencial ainda está a algumas semanas de distância, mas já começou a aparecer diariamente nos preços dos ativos. Não se trata apenas da disputa eleitoral em si. Para o mercado, a questão está ligada ao que cada mudança nas pesquisas pode significar para a política econômica, o controle das despesas públicas e a trajetória da dívida nos próximos anos.

É justamente essa incerteza que aumenta o prêmio exigido para manter dinheiro em ativos brasileiros. Na semana passada, por exemplo, a curva de juros futuros passou a incorporar taxas maiores em diferentes vencimentos, enquanto o dólar chegou à região de R$ 5,22.

Há ainda uma segunda dificuldade: a Selic permanece em 14% ao ano. Juros elevados deixam a renda fixa mais competitiva em relação à Bolsa, pressionam empresas endividadas e reduzem o apetite por negócios mais dependentes do consumo.

A atividade também começa a sentir esse efeito. O IBC-Br de junho caiu 0,64% na comparação mensal, resultado um pouco pior do que o mercado esperava e que reforçou a percepção de desaceleração da economia.

Esse enfraquecimento pode abrir espaço para novos cortes de juros à frente, mas cria outra dúvida no curto prazo: até que ponto os lucros das empresas serão afetados antes que uma Selic menor comece a ajudar a atividade?

Nem o exterior deu trégua

Se os problemas domésticos já eram suficientes para testar o humor do investidor, a geopolítica adicionou mais uma camada de volatilidade.

Na última segunda-feira (17), novas hostilidades no Oriente Médio fizeram o petróleo voltar a subir mais de 2%, enquanto os principais índices americanos terminaram o pregão em queda. O ambiente externo perdeu parte do alívio que havia aparecido após dados mais benignos de inflação nos Estados Unidos.

A alta do petróleo tem efeito ambíguo para o Ibovespa. De um lado, favorece ações como Petrobras (PETR4), que avançou 0,90% na sessão. De outro, aumenta preocupações com inflação global e juros, além de pressionar empresas consumidoras de energia e combustível.

Na própria segunda-feira, Vale (VALE3) também conseguiu fechar levemente no azul. O problema estava em outro peso pesado do índice: os bancos. Banco do Brasil (BBAS3) caiu 2,34%, Bradesco (BBDC4) perdeu 1,93%, Itaú Unibanco (ITUB4) recuou 1,59% e Santander (SANB11) cedeu 1,10%.

Fora do índice, a Casas Bahia (BHIA3) despencou 33,33% depois de entrar com pedido de recuperação judicial, aumentando a preocupação com crédito e consumo em um ambiente de juros ainda elevados.

Até quando o Ibovespa pode continuar caindo?

Dez pregões negativos não significam, por si só, que uma nova tendência de baixa de longo prazo esteja confirmada. Mas a duração e a intensidade da correção mudaram a leitura do mercado.

O Ibovespa chegou ao fim de julho aos 177.158,86 pontos. Em 17 de agosto, estava nos 166.783,57 pontos, enquanto a queda acumulada no mês alcançava aproximadamente 6,3%. Apesar da correção, o índice ainda sustentava valorização de cerca de 3,5% em 2026.

A Genial avalia que, depois da sequência de perdas, começam a surgir sinais técnicos de possível formação de fundo. A casa, porém, ressalta que a principal dúvida continua sendo se o prêmio eleitoral e fiscal já foi suficientemente incorporado aos preços ou se ainda existe espaço para uma nova reprecificação.

É justamente aí que a série de dez quedas ganha importância. O mercado brasileiro não enfrenta apenas uma realização depois das altas do primeiro semestre. O Ibovespa tenta descobrir qual desconto será necessário para trazer o investidor estrangeiro de volta enquanto eleição, fiscal, juros e geopolítica continuam disputando espaço no mesmo pregão.

Sair da versão mobile