Comprar uma ativo é, no fim das contas, comprar uma pequena parte de uma empresa. Por isso, olhar apenas para a cotação não conta a história inteira. Um papel pode ter caído 20% e ainda estar caro. Outro pode ter subido bastante e continuar interessante, dependendo do lucro, da geração de caixa, do endividamento e das perspectivas do negócio. Entender isso é fundamental para saber como analisar uma ação.
É nesse ponto que entra a análise fundamentalista. Em vez de observar apenas os movimentos de preço, ela busca entender a saúde financeira da companhia, a qualidade dos resultados e se o valor cobrado pelo mercado faz sentido diante do que a empresa entrega.
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Os indicadores ajudam a traduzir o balanço
Nenhum indicador, sozinho, responde se uma ação é boa ou ruim. A ideia é cruzar diferentes informações para entender quanto a empresa ganha, quanto consegue transformar em lucro e caixa e qual preço o mercado está atribuindo a esse desempenho.
Um dos indicadores mais conhecidos é o P/L, sigla para Preço sobre Lucro. Ele compara o preço da ação com o lucro gerado pela empresa. Em termos simples, mostra quantas vezes o mercado está pagando pelo lucro anual da companhia. Um P/L de 10 vezes, por exemplo, significa que o valor de mercado equivale a aproximadamente dez anos do lucro atual, numa conta simplificada.
Um P/L baixo pode indicar que a ação está barata em relação aos resultados, mas também pode ser sinal de que o mercado espera queda nos lucros ou enxerga riscos maiores naquele negócio. Por isso, o número nunca deve ser analisado sozinho.
Outro múltiplo comum é o P/VP, ou Preço sobre Valor Patrimonial. Ele compara o valor de mercado da empresa com seu patrimônio líquido, que corresponde, de forma resumida, à diferença entre seus ativos e suas obrigações.
Quando uma ação negocia a 1 vez o valor patrimonial, significa que o mercado está atribuindo à companhia um valor semelhante ao patrimônio registrado no balanço. Esse indicador costuma ser especialmente relevante em setores como bancos e empresas com grande quantidade de ativos.
Já o EV/Ebitda compara o valor total da empresa com sua geração operacional de resultado. EV significa Enterprise Value, ou valor da firma, e considera o valor de mercado somado à dívida líquida. O Ebitda representa o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização.
Na prática, o EV/Ebitda ajuda a responder quanto o mercado está pagando pela operação da empresa antes dos efeitos da estrutura financeira e de alguns itens contábeis. É bastante usado para comparar companhias do mesmo setor, principalmente quando elas têm níveis diferentes de dívida.
Rentabilidade mostra se a empresa usa bem o dinheiro
Além dos múltiplos de preço, o investidor também precisa olhar para indicadores que mostram a eficiência do negócio.
O ROE, sigla para Return on Equity, ou retorno sobre o patrimônio líquido, mede quanto lucro a empresa consegue gerar com o capital dos acionistas. Um ROE de 20%, por exemplo, indica que a companhia gerou um lucro equivalente a 20% do patrimônio líquido no período analisado.
O ROIC, ou retorno sobre o capital investido, amplia essa análise. Ele busca mostrar quanto a operação gera de retorno considerando não apenas o dinheiro dos acionistas, mas também o capital de terceiros utilizado no negócio. Em empresas com dívida relevante, esse indicador ajuda a entender se os investimentos realizados estão realmente criando valor.
As margens também ajudam nessa leitura. A margem Ebitda mostra quanto da receita sobra depois dos principais custos e despesas operacionais, antes de juros, impostos, depreciação e amortização. Se uma companhia tem margem Ebitda de 25%, significa que, a cada R$ 100 de receita, R$ 25 permanecem como Ebitda.
Já a margem líquida mostra quanto efetivamente virou lucro depois de todas as despesas. Uma margem líquida de 10%, por exemplo, significa que, para cada R$ 100 faturados, R$ 10 terminaram no lucro líquido.
Um bom número pode esconder uma tendência ruim
Olhar apenas para o trimestre mais recente é um dos erros mais fáceis de cometer. Imagine uma empresa que anuncia lucro de R$ 1 bilhão. O número parece forte. Mas a leitura muda completamente se ela havia lucrado R$ 1,5 bilhão no mesmo período do ano anterior. Apesar de continuar lucrativa, houve uma queda relevante.
Por isso, comparar os resultados entre períodos faz parte da análise. Receita, lucro, Ebitda, margens, geração de caixa e dívida devem ser observados em relação ao trimestre anterior e, principalmente, ao mesmo período do ano anterior.
Essa comparação anual ajuda a eliminar distorções sazonais. Uma varejista, por exemplo, tende a vender mais no quarto trimestre por causa da Black Friday e do Natal. Comparar esse período apenas com os três meses anteriores pode levar a conclusões erradas.
Também é importante olhar uma sequência maior de resultados. Um trimestre muito forte pode ter sido provocado por um evento pontual. Quando a melhora aparece repetidamente ao longo de vários períodos, a chance de se tratar de uma mudança mais estrutural aumenta.
Dívida e geração de caixa também entram na conta
Lucro não significa necessariamente dinheiro entrando no caixa.
Uma companhia pode apresentar lucro contábil e, ao mesmo tempo, consumir recursos para manter estoques, financiar clientes ou realizar investimentos. Por isso, o fluxo de caixa ajuda a mostrar se a operação está efetivamente transformando resultado em dinheiro.
O endividamento também merece atenção. Um dos indicadores mais utilizados é a dívida líquida/Ebitda. Ele compara quanto a empresa deve, descontando o caixa disponível, com sua geração operacional.
Se a relação é de 2 vezes, isso significa, de forma simplificada, que a dívida líquida equivale a duas vezes o Ebitda anual. Quanto maior o número, maior tende a ser o peso da dívida sobre o negócio, embora o nível considerado adequado varie bastante entre setores.
Empresas de energia elétrica, por exemplo, costumam conviver com mais dívida porque possuem receitas relativamente previsíveis. Já negócios muito cíclicos podem enfrentar mais dificuldade com níveis elevados de endividamento.
Em ambientes de juros altos, essa análise ganha ainda mais importância, porque uma dívida maior pode gerar despesas financeiras mais pesadas e reduzir o lucro disponível aos acionistas.
Comparar empresas do mesmo setor faz diferença
Os indicadores também precisam ser colocados em perspectiva.
Um P/L de 15 vezes pode parecer caro em um setor e barato em outro. Isso acontece porque cada indústria possui características diferentes de crescimento, risco, margens e necessidade de capital.
Por isso, a comparação mais útil tende a ser feita entre empresas semelhantes.
Se uma companhia apresenta margens maiores, menor endividamento e crescimento mais consistente do que suas concorrentes, mas negocia a múltiplos parecidos, essa diferença pode merecer atenção. Da mesma forma, uma ação aparentemente barata pode estar com desconto justamente porque o mercado enxerga riscos maiores naquele negócio.
Os números, porém, são apenas uma parte da análise. Também entram na conta a qualidade da gestão, a posição competitiva da empresa, as perspectivas do setor, os riscos regulatórios e a capacidade de continuar crescendo.
É essa combinação que ajuda o investidor a entender não apenas quanto custa uma ação, mas principalmente o que está sendo comprado por aquele preço.
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