Diversificar carteira costuma significar, para o investidor brasileiro, equilibrar exposição entre ações, fundos imobiliários (FIIs), renda fixa e, dependendo da estratégia, ETFs, ativos internacionais ou ouro. A lógica é conhecida: reduzir concentração e diluir riscos entre diferentes classes. Mas, fora desse universo tradicional, existe um grupo que costuma despertar curiosidade, os chamados ativos alternativos.
É nesse contexto que um estudo do Instituto ViaFoto chama atenção ao apresentar um caso de retorno acumulado superior a 380% com uma coleção de fotografia vendida em leilão. O número impressiona, mas talvez a principal discussão para o investidor não esteja no desempenho em si, e sim no que ele revela sobre os limites e os riscos da diversificação fora da Bolsa.
O que muda quando o investimento sai do mercado tradicional
Enquanto ações, ETFs e FIIs oferecem mercado secundário estruturado e liquidez relativamente previsível, ativos alternativos operam sob outra lógica. Entram nesse grupo investimentos menos convencionais, como participações privadas, crédito estruturado, colecionáveis e outros ativos reais, geralmente com menor transparência e maior dificuldade de precificação.
Segundo Thierry Chemalle, economista e professor de Finanças do Mercado da Arte da FGV, esse é justamente o principal divisor.
“A fotografia pode ser vista como um ativo financeiro, mas não é comparável de forma direta a ações ou renda fixa. Ela é muito menos líquida, mais subjetiva e depende bastante de fatores como reputação do artista e validação institucional.”
Na prática, isso significa que um retorno expressivo isolado nem sempre representa uma tese replicável como ocorre, por exemplo, em estratégias estruturadas de longo prazo com ações ou fundos.
O retorno de 380% que exige contexto
O caso citado no estudo envolve uma coleção brasileira adquirida ao longo de anos e posteriormente vendida em leilão, com valorização acumulada superior a 380%.
O dado chama atenção, mas o próprio especialista alerta contra leituras simplistas.
Esse tipo de retorno, segundo Chemalle, tende a estar ligado a situações específicas, como compras muito precoces, artistas emergentes e horizonte longo de maturação.
Ou seja, mais próximo de uma aposta altamente específica do que de uma estratégia padronizável de investimento.
Além disso, o mercado brasileiro de arte ainda representa menos de 1% do volume global, com menor internacionalização e transparência, fatores que elevam a assimetria de informação.
Onde os ativos alternativos entram na diversificação
Para o investidor da Bolsa, a principal provocação talvez seja outra: diversificar melhor nem sempre significa buscar ativos mais exóticos.
Ampliar exposição internacional, equilibrar renda variável e renda fixa, incluir proteção cambial ou ouro já são caminhos clássicos de diversificação amplamente discutidos no mercado.
Os ativos alternativos podem até ocupar espaço patrimonial, mas mais como complemento do que núcleo da estratégia.
Como resume Chemalle, eles podem ter papel interessante na diversificação, desde que o investidor entenda que retorno potencial e risco costumam caminhar com menos previsibilidade do que no mercado tradicional.
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