Se antes o medo era a IA “roubar empregos”, agora ela começa a lembrar os roteiros de filmes: sistemas cada vez mais autônomos, capazes de tomar decisões e interagir com o mundo real. Ainda estamos longe da ficção, mas a discussão já deixou de ser apenas sobre produtividade e passou a envolver segurança, governança e controle. Para investidores, isso significa que a corrida da Inteligência Artificial pode impulsionar não apenas as desenvolvedoras de modelos, mas também empresas de cibersegurança e infraestrutura digital.
E esse debate deixou de ser apenas hipotético. A Anthropic, desenvolvedora do Claude, revelou recentemente que modelos da empresa acessaram, por engano, os sistemas de três organizações durante testes de segurança. Embora a companhia tenha classificado o episódio como uma falha operacional, o caso colocou em evidência um desafio que ganha força com o avanço da IA: como garantir que sistemas cada vez mais autônomos permaneçam sob controle.
Na mesma direção, o Gartner afirmou, durante sua Conferência de Segurança & Gestão de Risco, que a IA ampliará tanto a capacidade dos ataques quanto das defesas, exigindo uma mudança na forma como as empresas tratam a cibersegurança.
A IA acelera os ataques, mas também fortalece a defesa
Para o Gartner, um dos principais desafios está na explosão das chamadas identidades de máquinas — credenciais utilizadas por softwares e agentes de IA para acessar sistemas corporativos.
A consultoria estima que, até 2028, 25% das violações de segurança ocorrerão por meio de agentes de IA ou outras identidades de máquinas mal gerenciadas. Isso acontece porque muitos sistemas de controle de acesso foram desenvolvidos para usuários humanos e não conseguem acompanhar o crescimento das automações.
Para Rafael Dantas, Head de Cibersegurança da TLD, a vantagem da IA não está necessariamente em tornar os ataques mais sofisticados, mas muito mais rápidos. “A IA não deixou o atacante necessariamente mais inteligente, mas muito mais rápido, escalável e adaptável. O desafio não é automatizar tudo, mas enxergar primeiro, decidir com contexto e agir rápido, sem transformar a própria automação em um novo risco.”
Resiliência passa a valer mais do que prevenção
Outra mudança apontada pelo Gartner é que impedir todos os ataques deixou de ser uma meta realista. Em vez disso, empresas passam a ser avaliadas pela capacidade de detectar rapidamente um incidente, limitar seus impactos e retomar as operações no menor tempo possível.
Segundo o Gartner, até 2028 organizações que implementarem IA de forma efetiva em Centros de Operações de Segurança (SOCs) poderão reduzir em 30% os incidentes que exigem intervenção humana, permitindo que analistas concentrem esforços em casos mais complexos.
Na avaliação de Felix Lauzem, Engineer Security Advisor da SEK, a discussão deixou de ser quem possui a IA mais poderosa. “A IA não criou novas técnicas de ataque, mas mudou radicalmente sua escala e velocidade. Ao mesmo tempo, a defesa também evoluiu. Hoje, o diferencial não está em evitar todos os incidentes, mas em detectar, conter e recuperar a operação dentro do menor tempo possível.”
O que isso significa para o investidor?
O avanço da Inteligência Artificial abre espaço para empresas de cibersegurança, identidade digital, computação em nuvem e automação. Mas também evidencia que desenvolver modelos cada vez mais potentes não basta.
O episódio da Anthropic mostra que autonomia precisa caminhar ao lado de controles robustos. Ao mesmo tempo, as projeções do Gartner indicam que companhias capazes de combinar IA, governança e resiliência terão uma vantagem competitiva importante nos próximos anos.
No fim, a corrida da IA parece cada vez menos uma disputa entre quem tem o modelo mais inteligente e mais uma competição para descobrir quem consegue utilizá-lo com segurança.
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