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Correios: Veja os problemas que podem espantar compradores como o Magazine Luiza (MGLU3)

Correios. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil.

Correios. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil.

A privatização dos Correios voltou ao noticiário corporativo nas últimas semanas, gerando dúvidas sobre quais empresas poderiam levar o ativo em um eventual leilão. No passado, empresas como Magazine Luiza (MGLU3) e Amazon manifestaram o seu interesse na disputa pela desestatização dos serviços postais. Para especialistas, a compra dos Correios pode até parecer um bom negócio, mas na prática não é bem assim.

Apesar da alta capilaridade ser algo estratégico, existem vários pontos negativos que podem espantar empresas privadas em uma eventual privatização dos Correios, segundo especialistas ouvidos pelo SUNO Notícias. Confira alguns deles:

Empresa que levar os Correios ganhará dívidas

O ativo até voltou a dar lucro há dois anos, após um período de prejuízos seguidos, que foi de 2015 a 2017, mas isso não significa que está numa situação confortável, já que precisou receber aportes do Tesouro Nacional e contrair dívidas durante os anos no vermelho.

Dessa forma, a companhia que levar o ativo — como o Magazine Luiza ou a Amazon, que haviam manifestado interesse no leilão — terá de assumir uma empresa que tem uma dívida em torno de R$ 14 bilhões. Quase metade dos passivos correspondem a pendências financeiras com o fundo de pensão dos funcionários, o Postalis, e o plano de saúde da empresa.


Obrigações sociais e trabalhistas correspondem a cerca de 17% da dívida.

Servidores devem gerar custos altos

Além disso, o relator do projeto de desestatização, o deputado Gil Cutrim, prevê estabilidade de 18 meses aos servidores a partir do momento da privatização.

Os Correios têm cerca de 100 mil funcionários e para esses trabalhadores o documento define normas para um Plano de Demissão Voluntária (PDV) com o período de adesão de 180 dias, indenização de 12 meses do salário e programa de requalificação.

“A empresa que for comprar essa operação, além de assumir a dívida, deverá cumprir diversas regras exigidas no documento. Imagine 100 mil funcionários e 20% deles aderindo esse plano, e ainda tendo que pagar uma indenização de 12 meses. Isso é realmente um custo que tem que ser avaliado”, disse o advogado João Vitor Stüssi Velloso de Andrade, sócio do Chenut Oliveira Santiago Advogados.

Para efeito de comparação, o número de funcionários do Magazine Luiza está na casa dos 40 mil, menos da metade do total de pessoas empregadas nos Correios.

Modelo de privatização gera dúvidas

O modelo de privatização dos Correios também é um ponto de alerta, segundo o especialista em varejo e fundador da Varese Retail, Alberto Serrentino.

Isso porque o serviço prestado pelos Correios é considerado pela Constituição como um serviço essencial, portanto, com uma análise mais jurídica, ele não pode ser feito de forma indireta, ou seja, sua privatização pode ser considerada como inconstitucional.

De acordo com Serrentino, em tese existem vários candidatos à compra do ativo, mas isso dependerá de uma alteração no modelo de privatização dos Correios. “Então é preciso saber como é que isso fica e qual é o peso dessa conta, porque tem muita operação que, com certeza, é deficitária para garantir a entrega de correspondência em todo o País”, analisou Serrentino.

É válido lembrar que o procurador-geral da República, Augusto Aras, considerou inconstitucional a privatização do serviço postal e do correio nacional por meio de projeto de lei. As considerações foram enviadas ao Supremo Tribunal Federal (STF).

Distribuição geográfica pode ser problema

Os Correios são considerados essenciais e, por isso, todos os brasileiros devem ter acesso ao serviço. Portanto, a estatal atende algumas localidades que eventualmente não têm um grande fluxo de negócios que justifiquem a entrada de varejistas e de logísticas na disputa.

“As estações dos Correios em determinadas regiões um pouco mais remotas podem tornar uma operação deficitária para esse tipo de empresa, que não necessariamente tem interesse na operação dessas regiões”, disse Andrade.

Experiência internacional pode ajudar

O advogado lembrou ainda da privatização dos Correios na Alemanha, em que houve a criação de uma agência reguladora para coordenar e supervisionar o mercado e garantir, por exemplo, que todas as cidades fossem atendidas.

Na análise de Andrade, nos moldes de como se está debatendo hoje, não há um grande benefício para as empresas privadas. Porém, a criação de uma agência poderia tornar a operação mais interessante.

“Essa agência reguladora da Alemanha trouxe uma série de condições que, se fosse no Brasil, poderiam tornar a operação das varejistas e das logísticas mais onerosas, do ponto de vista financeiro e do ponto de vista jurídico.”

Operação tem algumas vantagens

Apesar de todos os problemas, os Correios também trariam algumas vantagens para um comprador.

O primeiro ponto que agrada empresas como Magazine Luiza é a capilaridade muito alta. Para se ter uma base, atualmente os Correios têm um pouco mais de 6,3 mil agências próprias em todo o País, além de 4,3 mil comunitárias, 1 mil franqueadas e 127 permissionárias, segundo os últimos dados de 2018.

Esses dados animam as varejistas que estão investindo em lojas físicas e centros de distribuição para ter tamanha capilaridade e chegar na casa do consumidor de uma forma mais rápida.

“Uma agência de Correios em cada canto do Brasil pode ser vantajoso sim para as varejistas, porque são pontos de logística avançados dentro desse conceito de que pode fazer com que os produtos cheguem mais rápido nas mãos dos clientes”, disse o gestor da TRX Investimentos, José Alves Neto.

Não somente as varejistas estão de olho nessa capilaridade, mas também as empresas de logística. A FedEx e DHL já manifestaram seu interesse pela privatização do ativo, como havia sido dito pelo ministro das Comunicações, Fábio Faria, em uma live no ano passado.

“A abrangência e a rede dos Correios permite que muitos negócios cheguem a regiões mais distantes e esta deve continuar sendo uma prioridade de quem assumir a empresa”, analisou o CEO e fundador da Intelipost, Stefan Rehm.

Na análise dos especialistas, resta saber se os entraves não falarão mais alto do que os atrativos na disputa pelos Correios.

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