As construtoras ligadas ao segmento residencial vivem uma contradição na Bolsa: os papéis caíram entre 30% e 35% desde os picos recentes, mas os fundamentos do setor seguem resilientes, segundo análise do Banco Safra. Para a casa, a correção abriu uma assimetria positiva em empresas com maior exposição ao Minha Casa Minha Vida, menor sensibilidade aos juros e histórico mais consistente de execução.
A piora do humor com o setor veio em meio à reprecificação de riscos globais e ao aumento das preocupações com inflação. Ainda assim, o Safra avalia que o programa habitacional continua sendo um pilar de sustentação para as companhias, especialmente pela combinação entre acessibilidade elevada, menor impacto dos juros e espaço para repasse de preços.
Minha Casa Minha Vida segura tese das construtoras
Segundo o Safra, o Minha Casa Minha Vida segue como uma das principais fontes de retorno para o setor. O programa tem menor sensibilidade ao ciclo de juros e ainda apresenta níveis recordes de acessibilidade, o que favorece a demanda mesmo em um ambiente macroeconômico mais difícil.
A análise também destaca que as construtoras contam com mecanismos de proteção contra pressões de custos. Ainda assim, alguns pontos seguem no radar, como o aumento do endividamento das famílias e a leve alta da inadimplência inicial.
Mesmo com esses riscos, os indicadores de crédito continuam saudáveis diante de um mercado endereçável ainda amplo. Por isso, a leitura do Safra é de que o setor exige seletividade, mas não perdeu seus fundamentos.
Direcional é a favorita do Safra
Entre as empresas analisadas, a Direcional (DIRR3) aparece como a principal escolha do Banco Safra. A companhia tem menor exposição a choques inflacionários, apoiada por um mix de receitas mais concentrado em estoques prontos e por economias de custos ainda a capturar.
Com as ações cerca de 30% abaixo dos picos recentes, o Safra projeta para a Direcional um múltiplo preço sobre lucro ajustado de 5,4 vezes para 2027 e dividend yield estimado em 13%, patamares considerados atrativos diante do risco.
A Cury (CURY3) também aparece bem posicionada, apesar de maior exposição a custos. A companhia conta com uma carteira de recebíveis indexada à inflação que cobre cerca de 75% dos custos do backlog, o que ajuda a proteger margens. O Safra projeta múltiplo de 5,8 vezes o lucro ajustado, mesmo em um cenário mais conservador.
Já a Tenda (TEND3) destoou do setor, com alta de 37% no ano, impulsionada por resultados acima do esperado e revisões positivas de lucro. Ainda assim, a ação negocia a 4,7 vezes o lucro projetado para 2027, com desconto frente às principais concorrentes.
MRV e Plano e Plano exigem mais cautela
O Safra tem visão mais seletiva para Plano e Plano (PLPL3). As estimativas de lucro foram cortadas em 31% para 2026 e 2027, diante de vendas mais fracas e pressão sobre margens. Mesmo após queda de 35% no ano, o valuation segue atrativo, mas a menor visibilidade limita o apelo no curto prazo.
No caso da MRV (MRVE3), a análise reconhece melhora operacional, mas aponta a alavancagem como principal fator de risco. Custos mais altos podem pressionar margens, enquanto o processo de desalavancagem da Resia tende a ser mais longo, com possibilidade de novos ajustes contábeis.
Entre os riscos para o setor, o Safra cita inflação de construção acima do esperado, mudanças regulatórias com impacto em custos trabalhistas, maior endividamento das famílias, aumento da inadimplência, redução do funding via FGTS e desafios de execução diante da expansão dos lançamentos.
Para as construtoras, a queda recente das ações não elimina os riscos, mas pode ter criado oportunidades para quem olha os fundamentos com mais cuidado. A mensagem do Safra é que o setor continua atrativo, desde que o investidor seja seletivo e privilegie empresas com execução comprovada, menor beta e maior resiliência operacional.
