Brasil e Estados Unidos reabriram as negociações comerciais nesta segunda-feira (31), mas a primeira reunião terminou sem avanço concreto. O governo brasileiro tenta reduzir as tarifas dos EUA e ampliar a lista de produtos protegidos das sobretaxas, enquanto Washington sinaliza disposição para manter o diálogo.
O encontro virtual reuniu os ministros Mauro Vieira, das Relações Exteriores, e Márcio Elias Rosa, do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, além do representante comercial americano Jamieson Greer. Em nota conjunta, Brasília classificou as medidas como unilaterais, injustas e incompatíveis com as regras multilaterais de comércio. Leia a nota do governo brasileiro.
Segundo a Reuters, os dois países concordaram em realizar novas reuniões técnicas nas próximas semanas e voltar a se encontrar em nível ministerial. O ministro Márcio Elias Rosa, porém, afirmou que não houve negociação de setores específicos ou discussão de propostas concretas nesta primeira rodada.
Como funcionam as tarifas dos EUA sobre o Brasil?
As medidas aplicadas em julho combinaram duas cobranças adicionais. A primeira, de 25%, foi justificada pelo governo americano como resposta a supostas práticas comerciais desleais. A segunda, de 12,5%, foi relacionada a alegações de falhas no combate à importação de produtos feitos com trabalho forçado.
Quando as duas alíquotas incidem simultaneamente, a sobretaxa chega a 37,5%. De acordo com dados citados pela Folha, a cobrança atinge 3.985 produtos e representa cerca de US$ 10,8 bilhões em exportações brasileiras para os Estados Unidos.
O governo brasileiro contesta as justificativas americanas e afirma que as medidas aumentam o desequilíbrio comercial entre os dois países. Brasília também abriu o procedimento previsto na Lei de Reciprocidade Econômica, que pode permitir a adoção de contramedidas, mas o processo não resulta automaticamente em retaliações.
Quais produtos brasileiros já estão livres das sobretaxas?
Mais de 2,1 mil produtos foram excluídos da cobrança adicional, segundo levantamento apresentado pelo Metrópoles. A lista inclui itens considerados estratégicos para a economia americana ou importantes para evitar problemas de abastecimento.
Entre os produtos citados estão:
- carne bovina;
- café;
- laranja e suco de laranja;
- petróleo;
- aeronaves civis e componentes;
- minério de ferro;
- celulose;
- fertilizantes;
- ouro e prata.
A exclusão significa que esses produtos ficam fora das novas sobretaxas de até 37,5%. Isso não necessariamente representa tarifa zero, já que outras cobranças regulares podem continuar sendo aplicadas na entrada nos Estados Unidos.
Mesmo com as exceções, setores como calçados, máquinas, madeira, açúcar e parte da indústria química continuam expostos às tarifas. São segmentos em que a cobrança pode reduzir a margem dos exportadores, encarecer o produto brasileiro e dificultar a disputa com fornecedores de outros países.
O que o Brasil quer ampliar na negociação?
A prioridade brasileira é retirar mais produtos da lista tarifada, garantir novas exceções e, quando isso não for possível, reduzir as alíquotas. A estratégia busca proteger cadeias produtivas integradas, nas quais a tarifa também encarece insumos usados por empresas americanas.
Reportagem da CNN Brasil aponta que o governo pode discutir a redução de tarifas sobre bens de capital e avaliar questões relacionadas ao etanol. Em negociações anteriores, Brasília também havia mencionado máquinas e equipamentos, produtos para a área da saúde e itens de tecnologia da informação.
O governo, contudo, estabeleceu limites para as tratativas. O funcionamento do Pix e a exploração de minerais críticos são considerados temas sensíveis e não devem ser usados como moeda de troca para reduzir tarifas. A avaliação é que os Estados Unidos têm interesse estratégico nas reservas brasileiras, enquanto o Brasil quer garantir processamento, tecnologia e geração de valor no próprio país.
Qual pode ser o impacto para exportadores e para a economia?
Enquanto as tarifas permanecerem em vigor, empresas brasileiras podem perder competitividade no mercado americano. O importador dos Estados Unidos terá de escolher entre absorver o custo, repassá-lo ao consumidor ou buscar fornecedores alternativos.
O efeito tende a ser maior em produtos industrializados e de menor margem, como máquinas, móveis, calçados, químicos e madeira processada. Também pode haver pressão sobre contratos já assinados, adiamento de pedidos e necessidade de redirecionar mercadorias para outros mercados.
Para o Brasil, uma redução das exportações aos Estados Unidos pode afetar a entrada de dólares, a produção industrial e a geração de empregos em cadeias dependentes do comércio exterior. A permanência das medidas também aumenta a incerteza para investimentos e decisões de expansão.
A retomada do diálogo reduz o risco de uma ruptura imediata, mas ainda não representa um acordo. As próximas reuniões técnicas deverão mostrar se Washington aceitará ampliar as exceções e reduzir as tarifas dos EUA, ou se o impasse continuará pressionando os exportadores brasileiros.
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